Quando você saiu por aquela porta
- Iza de Macedo
- Dec 8, 2021
- 2 min read
Updated: Jun 17, 2024
Eu não relaxo. Desde que você saiu por aquela porta, eu vivo correndo. Preciso acelerar e fugir da sua ausência. Se eu descanso, você aparece. Tão intenso quanto sempre foi. E me domina. E eu desmaio.
Você é o ar que eu respirei por tanto tempo. E é por isso que vivo sufocada.

Fujo rápido, para que sua falta não me abrace e me derrube com força total. Finjo que se eu correr muito rápido, se minha vida for um completo caos, se eu não conseguir me olhar no espelho, então eu não vou sentir tudo isso que você deixou para trás.
Eu não paro. E não relaxo. E não respiro. E não vivo. E não sei mais quem eu posso ser. E não vejo mais ninguém. E não sei mais ser alguém.
Sou um furacão perdido em uma ventania que não existe. E por onde passo faço um estrago. Você me colocou para girar e eu não consigo mais parar. Você fez de mim um imenso vazio turbulento, que vai a mil quilômetros de distância em alguns segundos, fugindo de um buraco negro do passado, que me engole se eu desacelerar.
Meus dias passam e eu não vejo. Eu sinto. Um pá. Um grande pá. No peito. Como um tapa dado com uma mão grande. Me mostrando que foi mais um dia. Eu eu estalo, virando para outro lado, em busca de um novo vazio imenso, onde caiba todo o meu desamor.
Esse desamor gigantesco que você me concedeu, e que tinha cara de gentileza e de paixão obscena. Mas era só carência e pornografia.
Você me desalinhou. E me jogou despedaçada ao mar. Sem chances de voltar a respirar. De voltar a sentir o oxigênio entrar.
Então eu corro. O mais rápido que posso. Corro e corro e sem destino. Corro para alcançar o que não existe. Giro em volta do buraco que cavo todos os dias. E busco um futuro do pretérito. Tão certo quanto um unicórnio.
Eu corro para você não me alcançar. Mais. E corro para alcançar o que resta de mim. Em algum lugar. Que não sei onde está. E me descubro só. Ausente de mim. E me desespero. Numa imensidão desconhecida. Em um apagão de mim mesma.
E você está lá. Relaxado. Em uma praia paradisíaca. Ditando os próximos versos da poesia que é sua vida. E criando as regras do jogo de quem senta na sua mesa. E rasgando o coração das despercebidas. E jogando seu veneno na boca aberta de quem lhe grita.
E eu fico aqui. Buscando o futuro de um passado imensamente dolorido. Só porque eu olho para trás e vejo uma ilusão realista. De quando você me amou um dia. Porque eu acreditei que assim era e assim seria.
E eu te amei com tudo que eu tinha. E fiquei sem nada. Nada.
Sou um pretérito perfeito. Acabado. Perfeitamente acabado.
Com tudo que ficou para trás.
Eu, fim.
Você, recomeço.
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